Ética, Mídia e Sexualidade

A sexualidade humana tem uma história. Os elementos constitutivos desta história começam bem antes do nascimento da criança, e estão intimamente relacionados com o lugar que esta última ocupa no imaginário dos pais e na economia libidinal do casal. Após o nascimento, terá início a chamada constituição do sujeito: um processo marcado por intensos movimentos pulsionais, movimentos estes que definirão a expressão da sexualidade adulta. Isto significa que a maneira como cada um vive a sua própria sexualidade – de forma mais ou menos reprimida, com prazer, com culpa, enfim, as singularidades das manifestações da sexualidade de cada um – é construída desde os primeiros dias de vida.


Embora a criança demonstre em uma idade bem precoce interesse sexual, e mesmo atividade sexual, a sexualidade infantil é totalmente diferente da sexualidade adulta. A resposta que a criança dá às excitações sexuais que seu corpo produz, não corresponde à leitura que o adulto faz desta mesma sexualidade. Sem dúvida, é neste sentido que se pode dizer que a criança é inocente. Ela, de fato, o é quando está na fase típica das “brincadeiras sexuais”. É o adulto que, ao surpreendê-la nestas brincadeiras lhes atribuirá – às brincadeiras – a conotação sexual do universo adulto. É o adulto que significará à criança que certas brincadeiras são, ou não, permitidas, outras são proibidas e, em casos extremos, até merecem punição senão dos homens, de Deus. Seja como for, a resposta que o adulto dá à sexualidade da criança está diretamente ligada a maneira que este mesmo adulto viveu o despertar de sua própria sexualidade.


Assim, como vimos, ainda que a sexualidade infantil esteja presente desde o nascimento, ela tem um tempo e um ritmo que lhe são próprios, e a exposição prematura a um excesso de estímulos sexuais pode ser problemático para um sujeito em constituição. Uma das fontes deste excesso pode ser a mídia. Alguns programas de televisão podem incentivar o despertar da sexualidade de maneira prejudicial para o futuro da criança. Apenas um exemplo: há algum tempo atrás, várias emissões televisivas exibiam meninas de 3, 4 anos, às vezes menos, dançando a então famosa “dança da garrafa”. É claro, que isto traz uma grande satisfação para a criança e, em dúvida, para os pais, por estar sendo admirada e agradando ao público. Entretanto, o olhar do adulto em direção a esta cena, não é o mesmo que o da criança. Isto pode provocar uma erogenização precoce e produzir um tipo de apelo sexual em completa contradição com a sua condição infantil. A mídia tem que
saber disto, e se posicionar a respeito: é uma questão ética.


Os adolescentes tão pouco estão ao abrigo dos efeitos da mídia que podem ser perversos. A busca de modelos externos, típica desta fase de separação dos modelos familiares, fazem com que aqueles carentes de referências que suportem esta passagem tomem aos padrões e comportamentos sexuais que a mídia exibe como “regra de conduta”. Muitas vezes, entretanto, o que a mídia mostra está em total contradição com o sentimento que o adolescente experimenta, o que pode fazer com que ele se sinta desrespeitado, discriminado ou até perdido. Em outras situações, a mídia pode oferecer “soluções” a conflitos internos assegurando ao sujeito a ilusão de pertencer a um grupo e propiciando-lhe, ao mesmo tempo, uma defesa contra o perigo de se entrar em contato com representações inconscientes geradoras de angústia.


A mídia tem uma responsabilidade ética com aquilo que exibe, e não pode ignorar a sua participação na construção social, na formação de mentalidades e no desenvolvimento psicossocial da criança e do adolescente. Atrelar o que ela veicula unicamente aos pontos da audiência baseada na ideologia de uma cultura globalizante é desrespeitar a particularidade do tempo de maturação da constituição de cada sujeito.

Paulo Roberto Ceccarelli*

http://www.ceccarelli.psc.br/artigos/portugues/html/midiasexual.htm

por: Cristiane Klein

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~ por 1efecep em 8 de novembro de 2010.

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